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Solidão afeta idosos LGBT

Primeira geração de homossexuais que viveu abertamente sua sexualidade chega à velhice e ao isolamento

Bob Wolfenson/Divulgação
A cantora Angela Ro Ro, de 67 anos, é filha única, não casou nem teve filhos

A vulnerabilidade desses idosos é uma preocupação recente do movimento LGBT. Aqueles que foram estigmatizados por participar da luta pela liberação sexual, no início dos anos 1970, agora precisam “voltar para o armário, se quiserem se proteger”, afirma Resende. Há décadas, o militante tenta criar em Belo Horizonte um espaço que abrigue seus pares. Em 2013, passou seis meses em Nova York para conhecer o trabalho da Advocacia e Serviços para Idosos LGBTs (Sage), organização que desde 1978 oferece apoio à comunidade gay idosa. “Eles dão moradia, remédio e até uma carteirinha de descontos em shows da Broadway. Para quem tem um histórico de privações, essas coisinhas são um alento.”

Quando se trata de um homossexual, ao envelhecimento biológico acrescenta-se uma complexa teia de problemas discriminatórios, diz Carlos Henning, professor de Antropologia da Universidade Federal de Goiás (UFG). “A maioria foi expulsa de casa e perdeu essa rede de suporte que é a família. Além disso, enfrenta maiores dificuldades no serviço público de saúde.” Para Henning, o fato de muitas casas de repouso serem administradas por instituições religiosas representa uma barreira a mais para LGBTs que precisam do serviço. “É comum transsexuais terem de desfazer o processo de transição, cortar o cabelo, tirar as próteses e mudar de roupa para serem aceitas ali.”

Aos 71 anos, Eloína dos Leopardos sabe que sua história é uma exceção da maioria das travestis, que segundo levantamento da União Nacional LGBT vivem, em média, 35 anos – a expectativa de vida da população brasileira é de 75,5 anos, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “Tive a sorte de ser criada por uma senhora que me aceitou desde o início, aos 11 anos, quando eu já sabia que era diferente.” Ainda jovem, Eloína foi para Paris, onde iniciou a carreira de artista. Sua trajetória e de outras sete colegas é contada no documentário Divinas Divas, dirigido pela atriz Leandra Leal. A família dela, hoje, se resume a um irmão, com quem mantém bom relacionamento. Mas é no Retiro dos Artistas, no Rio, que a septuagenária planeja morar quando não puder mais cuidar de si. Enquanto isso, continua trabalhando todas as noites no Bar da Onça, em São Paulo.

Mariana Muller/Divulgação
Aos 71 anos, a travesti Eloína dos Leopardos continua trabalhando; ela pretende passar a velhice no Retiro dos Artistas, no Rio

Angela Ro Ro prefere não pensar na dependência que a velhice gera. Filhos, nunca quis. Diz ter sido uma “doidinha espontânea”, que nunca planejou o futuro, mas também não pretende fazê-lo agora. “A minha vida é um circo, nunca fui atrás nem da pensão herdada do meu pai (um policial federal). Se eu deixo de trabalhar, a lona cai.” Por sua arte e pelas contas a pagar, segue nos palcos e nos estúdios. Até o fim do ano, deve lançar Selvagem, disco autoral com 11 faixas inéditas.

A geração gay que primeiro viveu abertamente sua sexualidade está conquistando a longevidade para viver em um “limbo”, afirma a historiadora e militante Heliana Hemérito, integrante do Conselho Nacional de Saúde. Para ela, os pioneiros não previram o envelhecimento. “Ninguém precisa pensar a vida a partir do casamento, mas é inegável que essa construção, lá na frente, faz falta. Sem ela é preciso preparar uma velhice solitária.” Mãe de dois filhos, Heliana se declarou homossexual após os 30 anos. A família fingia não saber de sua orientação, tratando as namoradas por amigas. “A construção da identidade negra, para mim, que cresci na classe média, já havia me preparado para muitas situações de discriminação. Então, lidei bem.”

Depressão

A psicanalista e coordenadora de psicoterapia do Hospital das Clínicas, Dorli Kamkhagi, aponta que o cenário de abandono favorece o desenvolvimento de depressão. A pesquisadora é responsável por um grupo de apoio a homens acima de 55 anos que mantêm relações homoafetivas. Todas as quintas-feiras, os pacientes se reúnem para compartilhar experiências. “Eles ouvem e são ouvidos, percebem que suas escolhas e orientações formam direitos inquestionáveis.” A convivência ainda ajuda a minimizar o vazio deixado pela família, diz.

A depressão, cujo custo global por perda de produtividade chega a US$ 1 trilhão por ano, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), já quase afastou Noemia Serqueira, de 61 anos, do trabalho. A diarista terminou um casamento de sete anos e hoje vive sozinha em uma quitinete alugada pela metade de seu salário mensal. Noemia veio fugida para São Paulo porque, aos 18 anos, ainda morando em Salvador, sua família adotiva tentou casá-la com um senhor. A ideia era “curá-la” da homossexualidade. Aqui, trabalhou na noite como dançarina e, depois que aprendeu a ler e escrever, conseguiu um emprego de garçonete. “Comecei a fazer faxina porque fui demitida. Agora, espero minha aposentadoria, depois quero desacelerar, ficar tranquila, vendendo doce em alguma esquina.” Se no futuro precisar de cuidados, ela pensa em procurar os parentes legítimos, que só chegou a conhecer já adulta.

O escritor João Silvério Trevisan, de 73 anos, sonhava com um relacionamento duradouro desde os tempos de criança, quando queria se casar com o Tarzan. A ideia lhe pareceu antiquada durante a juventude, porque na época o casamento como instituição era visto como uma pauta dos “gays de direita”. Mas atualmente pretende oficializar a relação com o namorado, de 31 anos, para resolver questões burocráticas, como incluí-lo no plano de saúde. Ele não quer filhos, está satisfeito com a companhia do parceiro – “embora eu o alerte para o meu prazo de validade”, brinca.

Edson Masaka/Arquivo Pessoal
João Silvério Trevisan, de 73 anos, pretende se casar com o namorado, 42 anos mais novo

Ao contrário de João, o publicitário Osmar Resende ainda quer ter filhos, mesmo solteiro. “Sempre foi o meu sonho, mas acho que já não dá para mim. Eu não acompanharia o crescimento da criança.”

Osmar Resende/Arquivo pessoal
O militante Osmar Resende, 65 anos, planeja construir uma residência que sirva de apoio à população LGBT idosa

Fonte: O Estadão

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